A IMPORTÂNCIA DA TRANSMISSÃO

Foi a partir do início da década de 70 que começou a ser efetivamente implantado o sistema interligado brasileiro. De maneira geral o processo começou pela integração dos diversos sistemas de um mesmo estado, foi seguida pela interligação dos sistemas dos estados de uma mesma região e culminou com a implantação das ligações entre as regiões, sempre acompanhado da construção de usinas hidrelétricas cada vez maiores. Hoje o Brasil conta com um formidável sistema elétrico interligado, com mais de 83.000 km de linhas de transmissão com tensão igual ou superior a 230 kV e capacidade de transformação superior a 250.000 MVA, estendendo-se do Rio Grande do Sul ao Pará.

O sistema de transmissão, composto por linhas e subestações, é a espinha dorsal do sistema interligado nacional, ligando as fontes de geração aos centros de carga e viabilizando os ganhos energéticos que resultam da diversidade hidrológica entre as diferentes bacias brasileiras. A configuração do sistema brasileiro, com predominância de hidrelétricas de grande porte situadas a grandes distâncias dos pontos de concentração do consumo, exige um sistema de transmissão de alta complexidade, que tem que ser especialmente robusto para suportar as inevitáveis contingências.

A evolução do sistema foi acompanhada pela adoção de tecnologias mais modernas e novos métodos de manutenção. As linhas de 230 kV foram sucedidas pelas de extra-alta-tensão, com linhas em 750 kV e elos de corrente contínua. A proteção eletromecânica da década de 70 foi substituída pela proteção estática e depois pela digitalizada. A execução de serviços de manutenção em linhas desligadas foi substituída pelo serviço em linha viva ou ao potencial. As inspeções visuais deram lugar a sofisticadas verificações a partir de helicópteros, com uso de detectores de última geração.

Em que pese a eventual ocorrência de emergências em seus componentes, algumas das quais com grandes repercussões para os consumidores, o desempenho do sistema de transmissão equipara-se aos dos melhores do mundo, embora seja de complexidade ímpar.

Mas nem tudo são flores. Na década de 80, em função das dificuldades para obtenção de recursos para novos investimentos pelas empresas estatais, alguns critérios de planejamento da expansão do sistema de transmissão foram relaxados. O tradicional - e caro - critério do "n - 1", no qual é garantido que o sistema suporta a perda isolada de qualquer um de seus elementos, deixou de ser utilizado, tornando vulnerável o suprimento de algumas áreas. Os transformadores reservas de algumas subestações passaram a ser compartilhados com outras unidades, assumindo-se o risco de um tempo maior para a substituição de equipamentos defeituosos.

Esta situação começou a ser revertida a partir do ano 2000, com a retomada do ritmo de expansão necessário ao atendimento das necessidades do sistema. As licitações de novas linhas pela ANEEL, com participação do capital privado ao lado de investimentos públicos, estão restaurando os níveis de confiabilidade do sistema.
O modelo adotado para o segmento Transmissão tem se mostrado atraente para os capitais privados, principalmente pelo baixo risco destes investimentos, remunerados com receitas asseguradas que permitem razoável taxa de retorno. Esta característica fez com que o segmento praticamente não fosse afetado pelas modificações que foram introduzidas no modelo setorial desde o início de 2003. As perspectivas são, portanto, de continuidade da expansão observada nos últimos anos.

Em que pese sua boa situação, o segmento de Transmissão é afetado por numerosos problemas, que vão desde o nível de remuneração das instalações antigas até o discutível grau de centralização da operação do sistema, passando pelas dificuldades decorrentes do compartilhamento de instalações e definição de critérios de sobrecarga de equipamentos e linhas. A solução destes problemas, resultando em marcos regulatórios mais adequados, certamente contribuirá para o aperfeiçoamento do sistema e melhoria da confiabilidade do suprimento de energia elétrica para os consumidores finais. Esta é a luta da ABRATE.


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r. José Cláudio Cardoso
Presidente da ABRATE